domingo, 13 de março de 2011

O que eu gosto do teu corpo...

O que eu gosto do teu corpo é o sexo.
O que eu gosto do teu sexo é a boca.
O que eu gosto da tua boa é a língua.
O que eu gosto da tua língua é a palavra.

Cortázar, Julio. Papéis Inesperados.


Adendo: Livro emprestado por j.e, seguido do seguinte comentário: - Tenho medo que você leia isso, P.
rs Lógico, é o Cortázar.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Autobiografia

Aos quinze anos estive em um colégio no Piemonte, em Carmagnola, perto de Turim. Mais tarde na Universidade de Bolonha. Não tive sucesso com a química. E então dediquei-me um pouco a escrever e um pouco à vagabundagem. Era impelido a uma espécie de mania de vagabundagem. Uma espécie de instabilidade me impelia a mudar continuamente... Deveria estudar letras. Se estudasse letras poderia viver. A química eu absolutamente não compreendia, por isso me abandonei ao nada. Estive alguns meses na prisão. Dois ou três meses na Suíça, em Basiléia; por arruaça. Briguei com um suíço: as contusões. Não fui condenado. Tinha um parente, me recomendou. Na Itália, preso, e depois um mês na prisão, em Parma, por volta de 1902-1903. Estive no manicômio de Imola, do professor Brugia: estive ali quatro meses. Na Bélgica, depois de Imola, no manicômio de Tournay, outros quatro meses... Fazia alguns trabalhos. Por exemplo: temperar os ferros: temperava uma foice, um machado. Fazia-os para viver. Fui tocador de triângulo na Marinha Argentina. Fui porteiro de um circo em Buenos Aires. Exerci tantos trabalhos. Empilhei blocos de tijolos na Argentina. Dorme-se fora nas tendas. É um trabalho leve mas monótono. Na Argentina desaprendi até a aritmética. Não fosse isso, ter-me-ia empregado como contador... Fui carvoeiro nos navios mercantes, o foguista. Fiz-me de policial na Argentina, quer dizer, de bombeiro: lá os bombeiros têm alguma obrigação de manter a ordem. Estive em Odessa. Vendia serpentinas nas feiras... Conheço bem várias línguas... Voltei da Suíça para a Itália para não desertar. Na Itália viram que eu havia estado no manicômio e não me chamaram a serviço. Assim, dessa maneira, fiquei desocupado. Vendia os Cantos órficos no Paszkowski e no Casacos Vermelhos, em Florença; no Café de São Pedro, em Bolonha. Se eu vendia esse livro era porque era pobre... Todos me irritavam um pouco. Os futuristas achavam-no vazio, por exemplo. Tinha uma forte neurastenia.

Campana, Dino.
P.s.: Escreveu em um intervalo de lucidez, em uma de suas internações no manicômio de Castel Pulci.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Os Delinquentes

Para mim
Os delinquentes são criaturas horríveis
Parados em esquinas
Armados de facas
E aterrorizando o coração do
        transeunte ocasional.
        Nós realmente não somos amigos
        E eu evito
        Estes colegas iletrados
        Sentindo que meu dom para a linguagem
        Me habilita a outras recompensas
    Pelas quais eu agradeço a meus professores
E meus primeiros editores.

Solomon, Carl. De repente, Acidentes.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião
                                                                               qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor no fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através
                                                             das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga
                                                                             nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que
                                                                           há aqui:..
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na
                                                       loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra
                                                             debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Pessoa, Fernando. 1929. O Eu Profundo e os Outros Eus.

Frases soltas

"...êle age seguramente, mas de uma maneira vaga e obscura. Aliás, seria estranho, em nossa época, exigir clareza das pessoas!..."

"... Mas a estranheza e a originalidade prejudicam, em lugar de conferir um direito à atenção, sobretudo quando todo mundo de esforça por coordenar as individualidades e destacar um sentido geral do absurdo coletivo. (...)"

"... extravagância específica e nacional. (...)"

"... a exasperação de uma alma cativa. (...)"

"... regozijou com sua libertação, chorando a sua libertadora. Muitas vêzes, as pessoas, mesmo más, são mais ingênuas, mais simples do que o pensamos. Nós também, aliás. "

"... lhe impressionou a imaginação para o resto de seus dias..."

"... retirava-se em silêncio, quando a vida se lhe tornava intolerável..."

"... via-se depressa que não era melancolia, mas, pelo contrário, uma disposição igual e serena. (...)"

" (...) Os sentimentos e o pensamento de semelhantes indivíduos têm por vêzes impulsos tão bruscos quanto estranhos. (...)"

"... reza por nós, pecadores de consciência sobrecarregada. (...)"

" (...) Será mais fácil ir para o outro mundo sabendo o que lá se passa. (...)"

" (...) Quanto a mim, esperar-te-ei, porque sinto que és o único neste mundo que não me censurou, meu querido rapaz, não posso deixar de senti-lo!... (...)"

" (...) Sim, era mau e sentimental."

" (...) os milagres jamais perturbarão o realista. Não são êles que o levam a crer. Um verdadeiro realista, se é incrédulo, encontra sempre em si a fôrça e faculdade de não crer mesmo no milagre e, se êste último se apresenta como um fato incontestável, duvidará de seus sentidos em vez mesmo de admitir o fato. (...) No realista, a fé não nasce do milagre, mas o milagre da fé. Se o realista adquire a fé, deve necessariamente, em virtude de seu realismo, admitir também o milagre. (...)"

"... êle acreditava ùnicamente porque desejava crer; talvez tivesse já a fé inteira nas dobras ocultas de seu coração... "

"... não compreendem, desgraçadamente, que sacrificar sua vida é a coisa mais fácil em muitos casos..."

"... sofrido a influência dos raios oblíquos do sol poente..."

" (...) O stáriets é aquêle  que absorve vossa alma e vossa vontade nas suas. (...)"

"... a liberdade perfeita, isto é, a liberdade para consigo mesmo, e evitar a sorte daqueles que viveram sem se encontrar a si mesmos. (...)"

"(...) Havia cura ou sòmente melhoria natural do estado dêles? (...)"


Dostoiévski, Fiodor M. 1879. Os Irmãos Karamázovi.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Fui um Doudo em Sonhar Tantos Amores

Dorme, meu coração! Em paz esquece
Tudo, tudo que amaste neste mundo!
Sonho falaz de tímida esperança
Não interrompa teu dormir profundo!

Fui um doudo em sonhar tantos amores...
              Que loucura, meu Deus!
Em expandir-lhe aos pés, pobre insensato,
              Todos os sonhos meus!

E ela, triste mulher, ela tão bela,
              Dos seus anos na flor,
Por que havia de sagrar pelos meus sonhos
              Um suspiro de amor?

Um beijo - um beijo só! eu não pedia
               Senão um beijo seu
E nas horas do amor e do silêncio
               Juntá-la ao peito meu!

Foi mais uma ilusão! de minha fronte
               Rosa que desbotou
Uma estrela de vida e de futuro
               Que riu... e desmaiou!

Meu triste coração, é tempo, dorme,
              Dorme no peito meu!
Do último sonho despertei e n´alma
              Tudo! tudo morreu!

Meus Deus! por que sonhei e assim por ela
               Perdi a noite ardente...
Se devia acordar dessa esperança,
               E o sonho era demente?...

Eu nada lhe pedi: ousei apenas
               Junto dela, à noitinha,
Nos meus delírios apertar tremendo
               A sua mão na minha!

Adeus, pobre mulher! no meu silêncio
                Sinto que morrerei...
Se rias desse amor que te motava,
                Deus sabe se te amei!

Se te amei! se minha alma só queria
               Pela tua viver,
No silêncio do amor e da ventura
               Nos teus lábios morrer!

Mas volta ao menos no lembrar saudoso
              Um ai ao sonhador...
Deus sabe se te amei!... Não te maldigo,
              Maldigo o meu amor!...

Mas não... inda uma vez... Não posso ainda
                Dizer o eterno adeus
E a sangue frio renegar dos sonhos
                E blasfemar de Deus!

Oh! Fala-me de amor!... - eu quero crer-te
              Um momento sequer...
E esperar na ventura e nos amores,
              Num olhar de mulher!



Azevedo, Álvares de. 1853. Lira dos Vinte Anos.

Capítulo 1

"Oh, não posso explicar. Quando eu gosto imensamente de alguém, nunca digo seu nome pra ninguém. Parece que estou entregando uma parte deles. Você sabe o quanto eu gosto de segredos. É a única coisa que pode tornar a vida moderna maravilhosa ou misteriosa para nós. A coisa mais comum fica deliciosa se alguém a esconde. Quando deixo a cidade, nunca digo a ninguém para onde estou indo. Se eu dissesse, eu perderia todo o prazer. É uma mania tola, ouso dizer, mas de alguma forma parece trazer uma boa dose de romance à vida de alguém. Suponho que você me ache terrivelmente tolo a respeito."

Wilde, Oscar. 1890. O Retrato de Dorian Gray.