sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Autobiografia

Aos quinze anos estive em um colégio no Piemonte, em Carmagnola, perto de Turim. Mais tarde na Universidade de Bolonha. Não tive sucesso com a química. E então dediquei-me um pouco a escrever e um pouco à vagabundagem. Era impelido a uma espécie de mania de vagabundagem. Uma espécie de instabilidade me impelia a mudar continuamente... Deveria estudar letras. Se estudasse letras poderia viver. A química eu absolutamente não compreendia, por isso me abandonei ao nada. Estive alguns meses na prisão. Dois ou três meses na Suíça, em Basiléia; por arruaça. Briguei com um suíço: as contusões. Não fui condenado. Tinha um parente, me recomendou. Na Itália, preso, e depois um mês na prisão, em Parma, por volta de 1902-1903. Estive no manicômio de Imola, do professor Brugia: estive ali quatro meses. Na Bélgica, depois de Imola, no manicômio de Tournay, outros quatro meses... Fazia alguns trabalhos. Por exemplo: temperar os ferros: temperava uma foice, um machado. Fazia-os para viver. Fui tocador de triângulo na Marinha Argentina. Fui porteiro de um circo em Buenos Aires. Exerci tantos trabalhos. Empilhei blocos de tijolos na Argentina. Dorme-se fora nas tendas. É um trabalho leve mas monótono. Na Argentina desaprendi até a aritmética. Não fosse isso, ter-me-ia empregado como contador... Fui carvoeiro nos navios mercantes, o foguista. Fiz-me de policial na Argentina, quer dizer, de bombeiro: lá os bombeiros têm alguma obrigação de manter a ordem. Estive em Odessa. Vendia serpentinas nas feiras... Conheço bem várias línguas... Voltei da Suíça para a Itália para não desertar. Na Itália viram que eu havia estado no manicômio e não me chamaram a serviço. Assim, dessa maneira, fiquei desocupado. Vendia os Cantos órficos no Paszkowski e no Casacos Vermelhos, em Florença; no Café de São Pedro, em Bolonha. Se eu vendia esse livro era porque era pobre... Todos me irritavam um pouco. Os futuristas achavam-no vazio, por exemplo. Tinha uma forte neurastenia.

Campana, Dino.
P.s.: Escreveu em um intervalo de lucidez, em uma de suas internações no manicômio de Castel Pulci.

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